Expansão e consolidação
A enérgica atuação e representatividade dos fundadores da Academia Brasileira de Ciências garantiram a vitalidade e a consolidação da entidade na década de 1920. Determinados a desenvolver a cultura científica no país, eles tomaram a frente de diversas iniciativas que marcaram a história da ciência no Brasil. Um dos acontecimentos mais marcantes deste período, no qual os Acadêmicos tiveram importante participação, foram as comemorações do centenário da Independência do Brasil, em 1922. Na cidade do Rio de Janeiro, foi organizada uma grande exposição universal, nos moldes daquelas que vinham sendo realizadas em diferentes países desde a segunda metade do século XIX – e das quais o Brasil já participava desde a edição londrina do evento, em 1862.


Expansão e consolidação
A exposição abria espaço para a apresentação de diferentes aspectos da cultura e da economia nacionais, incluindo as ciências e as artes. Na ocasião, a ABC organizou uma mostra, intitulada “Os 12 minerais descobertos por José Bonifácio”, que homenageava José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), enviado pela coroa portuguesa a percorrer a Europa a fim de adquirir conhecimentos sobre mineralogia, filosofia e história natural – foi quando descobriu, na Suécia, os 12 minerais exibidos na mostra. Paralelamente à carreira científica, José Bonifácio teve importante atuação política no processo de independência do Brasil.
Além da mostra sobre o trabalho do mineralogista, a ABC contribuiu para a exposição universal com a organização de conferências proferidas por cientistas, entre os quais se destaca o matemático francês Émile Borel (1871-1956), da Universidade Sorbonne, que falou sobre “A Teoria da Relatividade e a curvatura do universo”. A Academia tomou parte, ainda, na criação da primeira Sociedade Brasileira de Química – extinta em 1951 –, durante o Primeiro Congresso Brasileiro de Química, que também fez parte das celebrações do centenário da Independência.

Ciência engajada
Desde o início, a Academia Brasileira de Ciências esteve engajada com os problemas do país, se posicionando e participando de movimentos importantes em diferentes setores. Na década de 1920, por exemplo, seus membros mobilizaram-se para defender a regulamentação do telégrafo sem fio, tecnologia que deu origem ao rádio.
Nesse contexto, a Academia publicou um manifesto que reivindicava a liberdade para aquisição de aparelhos receptores de rádio – na época, brasileiros que quisessem adquirir um rádio enfrentavam grande burocracia e aqueles flagrados com o aparelho sem permissão poderiam ser presos. Os governantes viam os aparelhos com desconfiança, pois tinham medo de que fossem usados para espalhar segredos militares.

os minerais descobertos por josé bonifácio foram tema de exposição promovida pela abc durante as comemorações do centenário da independência. – acervo abc

Edgard Roquette-Pinto era um dos opositores mais contumazes dessa visão tão negativa da radiodifusão. Para ele, o rádio era uma forma nova e promissora de entreter e educar a sociedade brasileira. “O rádio é a escola dos que não têm escola; é o jornal de quem não sabe ler; é o mestre de quem não pode ir à escola; é o divertimento gratuito do pobre; é o animador de novas esperanças, o consolador dos enfermos e o guia dos sãos – desde que o realizem com espírito altruísta e elevado”, defendia.
Sob sua liderança, membros da ABC criaram, em 1923, uma das primeiras rádios brasileiras, a Rádio Sociedade, que era mantida pela contribuição de sócios e funcionava na sede da Academia. A emissora trazia em sua programação inúmeros cursos e conferências de divulgação científica, além de música clássica e noticiários. Henrique Morize foi o primeiro presidente da Rádio Sociedade e Roquette-Pinto, o secretário (veja o quadro “ABC e a radiodifusão no Brasil”).
Além da popularização do rádio, outra frente em que a ABC atuou nesse período foi a de renovação da educação superior. Em 1924, vários Acadêmicos, sob a liderança de Everardo Backheuser, participaram da fundação da Sociedade Brasileira de Educação, atual Associação Brasileira de Educação (ABE), com o objetivo de modernizar o ensino superior no país e promover a institucionalização da pesquisa científica nas universidades.
“O problema da educação nacional só estará a caminho de ser resolvido no dia em que possuirmos uma ‘elite’ esclarecida e consciente, capaz de compreender sua importância e de empreender sua solução. Preparar uma ‘elite’ é, pois, o primeiro passo a realizar”, dizia o Boletim da ABE em julho de 1927. Entre 1926 e 1929, a instituição realizou cerca de 50 eventos de divulgação científica por ano, incluindo cursos, palestras e conferências. Entre os cursos oferecidos por membros da ABC destacam-se o de Manuel Amoroso Costa sobre matemática, o de Roquette-Pinto sobre antropologia e o de Tobias Moscoso sobre teorias de crescimento populacional.
“O problema da educação nacional só estará a caminho de ser resolvido no dia em que possuirmos uma ‘elite’ esclarecida e consciente, capaz de compreender sua importância e de empreender sua solução. Preparar uma ‘elite’ é, pois, o primeiro passo a realizar””
Boletim da ABE em julho de 1927

ABC e a radiodifusão no Brasil
A Rádio Sociedade foi criada em 20 de abril de 1923 por um grupo de cientistas e intelectuais do Rio de Janeiro, nos salões da então jovem Academia Brasileira de Ciências. O principal objetivo de seus fundadores era promover, por meio do rádio, a educação e a divulgação da ciência e da cultura.
O contexto da época era de grande otimismo em relação ao potencial das novas tecnologias de comunicação para a democratização da informação. Acreditava-se que o rádio seria capaz de disseminar o conhecimento científico, de forma fácil e ágil, para todo o Brasil.
“O rádio representa o papel preponderante de guia diretor, de grande fundador de almas, porque espalha a cultura, as informações, o ensino prático elementar, o civismo, abre campo para o progresso preparando os tabaréus, despertando em cada qual o desejo de aprender. Muita gente acredita que o papel educacional do radiofônico é simplesmente um conceito poético, coisa desejável mas difícil ou irrealizável. Quem pensa desse modo não conhece o que se faz no Brasil”, diz Roquette-Pinto.
Os programas transmitidos pela rádio incluíam, além de música e noticiário, uma série de cursos livres – como os de inglês, francês, história do Brasil, literatura portuguesa, literatura francesa, radiotelefonia e telegrafia – e dezenas de conferências de divulgação científica sobre temas diversos, incluindo física, química e saúde.
A Rádio Sociedade encerrou suas atividades em 1936, quando foi doada para o governo com a condição de que seus objetivos originais fossem mantidos. Passou a se chamar Rádio Ministério da Educação, mais conhecida como Rádio MEC.
Visitas ilustres
Foi nesse mesmo período que a ABC recebeu alguns de seus visitantes mais famosos. Albert Einstein, que já era reconhecido mundialmente por sua Teoria da Relatividade e havia recebido, em 1921, o prêmio Nobel por seu trabalho sobre o efeito fotoelétrico, esteve na instituição em 1925, durante uma espécie de turnê político-científica pela América do Sul – além do Brasil, visitou também Argentina e Uruguai, disseminando suas pesquisas e defendendo a paz mundial, com a ideia de que a ciência poderia contribuir para a superação das discórdias entre as nações.

Naquela época, não havia, no Brasil, instituições científicas voltadas especificamente à física e à matemática. Porém, alguns cientistas da Escola Politécnica e outras escolas de engenharia dedicavam-se a estudar essas áreas. No Rio de Janeiro, Einstein esteve no Palácio do Catete, no Museu Nacional, no Hospital dos Alienados, no Clube de Engenharia e no Observatório Nacional. Também fez um breve depoimento em alemão na Rádio Sociedade.
Mas seu compromisso científico mais relevante foi a palestra proferida na ABC, “Observações sobre a situação atual da Teoria da Luz”, na qual estiveram presentes mais de 100 representantes de várias instituições. Em sua conferência, Einstein apresentou resultados de pesquisas que comparavam suas ideias sobre o fóton às teorias anteriores sobre a natureza ondulatória da luz. Na mesma ocasião, recebeu o diploma de membro correspondente da ABC, e a instituição estabeleceu o Prêmio Einstein, que seria oferecido anualmente.
O manuscrito que baseou a fala de Einstein – traduzido do alemão – foi publicado na primeira edição da Revista da Academia Brasileira de Ciências, no ano seguinte à visita do físico.
A visita do físico alemão captou a atenção da imprensa. Muitos artigos – favoráveis e contrários à Teoria da Relatividade – foram publicados nos jornais. O tema foi debatido em várias sessões na ABC, culminando no artigo “Resposta a algumas objeções feitas entre nós contra a Teoria da Relatividade”, de Roberto Marinho de Azevedo.

Um ano depois de Einstein, a cientista polonesa Marie Sklodowska Curie, ganhadora de dois prêmios Nobel – o de física em 1903 e o de química em 1911 – foi recebida pela ABC no Anfiteatro de Física da Escola Politécnica. Ela proferiu uma série de palestras sobre radiação, incluindo temas como as constantes radioativas e a extração de rádio, polônio, urânio e outros metais radioativos de amostras de minério. As conferências foram transmitidas pela Rádio Sociedade.
Na cobertura de um desses eventos, a revista Electron descreve que Curie foi “calorosamente aplaudida” pela audiência. A imprensa, de uma maneira geral, via com grande simpatia a cientista, anunciada em O Jornal como “a mulher mais sábia do mundo”. Sua passagem pelo Brasil – além do Rio de Janeiro, Curie visitou São Paulo, Belo Horizonte e Águas de Lindoia – levantou ainda uma questão de gênero importante: a presença das mulheres na ciência. Curie foi a primeira mulher aceita como membro correspondente da ABC.

Um ano depois de Einstein, a cientista polonesa Marie Sklodowska Curie, ganhadora de dois prêmios Nobel – o de física em 1903 e o de química em 1911 – foi recebida pela ABC no Anfiteatro de Física da Escola Politécnica. Ela proferiu uma série de palestras sobre radiação, incluindo temas como as constantes radioativas e a extração de rádio, polônio, urânio e outros metais radioativos de amostras de minério. As conferências foram transmitidas pela Rádio Sociedade.
Na cobertura de um desses eventos, a revista Electron descreve que Curie foi “calorosamente aplaudida” pela audiência. A imprensa, de uma maneira geral, via com grande simpatia a cientista, anunciada em O Jornal como “a mulher mais sábia do mundo”. Sua passagem pelo Brasil – além do Rio de Janeiro, Curie visitou São Paulo, Belo Horizonte e Águas de Lindoia – levantou ainda uma questão de gênero importante: a presença das mulheres na ciência. Curie foi a primeira mulher aceita como membro correspondente da ABC.


Cobertura da revista electron (ano 1, número 16, setembro de 1926) sobre a visita de marie curie à abc. – Reprodução.
As visitas de Einstein e Curie são apenas a face mais famosa daquilo que seria uma das principais atividades da Academia em seu período de consolidação. A presença de grandes nomes da ciência internacional dava credibilidade à instituição e reforçava seu papel de promotora da ciência no Brasil. Ao longo de toda a década de 1920, a ABC recebeu numerosos cientistas estrangeiros, como o físico Waclaw Radecki (Universidade de Varsóvia, Polônia), o engenheiro Fernando de Almeida Vasconcelos (Universidade de Lisboa, Portugal), o físico Henri Abraham (Escola Normal Superior, França), o biólogo Henri Pièron (Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura, França), entre outros. A maioria dos visitantes foi empossada como membros correspondentes.
Tão importante quanto representar a ciência internacional no Brasil era tornar a comunidade científica brasileira conhecida no exterior: em junho de 1926, a ABC participou pela primeira vez de uma instância internacional oficial, com Henrique Morize representando o Brasil no Conselho Internacional de Pesquisas em Bruxelas, na Bélgica.

Dificuldades e tragédia
A crescente visibilidade das atividades da Academia rendeu frutos como a doação, pelos governos do Brasil e da Tchecoslováquia, do pavilhão na Avenida das Nações (atual Avenida Presidente Wilson), no Castelo, construído para abrigar a mostra do país europeu na Exposição Universal de 1922. O prédio tornou-se a primeira sede própria da ABC, inaugurada em 1924, e abrigou também a Rádio Sociedade. Quatro anos depois, porém, foi tomado pelo prefeito Antônio da Silva Prado Junior, sob a alegação de que havia sido cedido “a título precário”.
Esse não foi o único percalço enfrentado pela ABC na década de 1920. A escassez de recursos tornou impossível a manutenção das publicações de divulgação de resultados de pesquisas dos Acadêmicos e associados. A Revista de Sciencias, que sucedeu a Revista da Sociedade Brasileira de Sciencias (1917-1919), sofreu descontinuidade depois de ser publicada em 1920 e 1921. A Revista da Academia Brasileira de Ciências, que lhes deu prosseguimento, foi publicada apenas em 1926 e 1928.


Houve ainda, em 1928, um trágico acidente com o hidroavião Santos Dumont, que voava para homenagear o inventor no seu regresso de navio ao Brasil. Deixou 14 mortos na Baía de Guanabara, incluindo os Acadêmicos Manuel Amoroso Costa, Ferdinando Labouriau e Tobias Moscoso, causando consternação na Academia e nos meios científico e cultural do país.
A direção da ABC, a partir da gestão de Miguel Ozório de Almeida, em 1929, concentrou esforços na consolidação institucional, incluindo a viabilidade financeira, a renovação de suas lideranças, o crescimento controlado do quadro de associados e a tentativa de aquisição de uma sede própria. A criação dos Anais da Academia Brasileira de Ciências, em 1929, foi, ao mesmo tempo, um resultado desses esforços e um elemento determinante na continuação das atividades da Academia. Editada ininterruptamente até hoje, a revista é um dos periódicos científicos mais respeitados do Brasil ainda em circulação.
