Nasce a Sociedade Brasileira de Ciências
Em seus cem anos de vida, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) foi testemunha e partícipe do grande progresso da ciência no Brasil. Em um período marcado por uma guerra mundial que inaugurou a era das armas nucleares, por instabilidades políticas que afetaram a democracia no país e por crises econômicas que prejudicaram o desenvolvimento nacional, a ciência brasileira avançou, multiplicou suas áreas de atuação, afirmou-se internacionalmente e espraiou-se nas diversas regiões do país, beneficiando a sociedade brasileira.
Multiplicaram-se os grupos de pesquisa, o número de artigos publicados em revistas de prestígio, o número de doutores formados. Com consequências diretas para o desenvolvimento nacional: sem a ciência brasileira, a Petrobrás não teria sido uma empresa inovadora, detentora de prêmios internacionais por sua tecnologia de extração de petróleo em águas profundas; a Embraer não estaria exportando aviões para um grande número de países; a produtividade da soja não teria sido multiplicada por quatro, contribuindo para a pauta de exportações do país; e estaríamos de mãos atadas frente a epidemias emergentes, como as arboviroses.

Logotipo da sociedade brasileira de ciências. – Acervo ABC.
Em seus cem anos de vida, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) foi testemunha e partícipe do grande progresso da ciência no Brasil. Em um período marcado por uma guerra mundial que inaugurou a era das armas nucleares, por instabilidades políticas que afetaram a democracia no país e por crises econômicas que prejudicaram o desenvolvimento nacional, a ciência brasileira avançou, multiplicou suas áreas de atuação, afirmou-se internacionalmente e espraiou-se nas diversas regiões do país, beneficiando a sociedade brasileira.
Multiplicaram-se os grupos de pesquisa, o número de artigos publicados em revistas de prestígio, o número de doutores formados. Com consequências diretas para o desenvolvimento nacional: sem a ciência brasileira, a Petrobrás não teria sido uma empresa inovadora, detentora de prêmios internacionais por sua tecnologia de extração de petróleo em águas profundas; a Embraer não estaria exportando aviões para um grande número de países; a produtividade da soja não teria sido multiplicada por quatro, contribuindo para a pauta de exportações do país; e estaríamos de mãos atadas frente a epidemias emergentes, como as arboviroses.
“A Sociedade Brasileira de Ciências é uma associação de trabalhadores intelectuais resolvidos a consagrar todos os seus esforços ao progresso da ciência e ao engrandecimento do nosso querido Brasil.”
Henrique Morize

Além dos quatro nomes já citados, a nova instituição tinha o respaldo de vários outros cientistas, incluindo Allypio de Miranda Ribeiro, Alberto Childe, Alberto Betim Paes Leme, Edgard Roquette-Pinto, Joaquim Cândido da Costa Senna e Manuel Amoroso Costa, entre outros, que participaram formalmente de sua criação. Em seguida, outros pesquisadores também foram convidados a se juntar ao grupo, e, assim, a recém-criada SBC passou a contar com Roberto Marinho de Azevedo, Adalberto Menezes de Oliveira, Alfredo Loefgren, Arthur Alexandre Moses, Adolfo Lutz, Bruno Lobo, Juliano Moreira, Oswaldo Gonçalves Cruz, Antônio Pacheco Leão, Henrique Aragão, Álvaro Osório de Almeida, Cândido Firmino de Mello-Leitão, Carlos Chagas e outros cientistas de peso.
Pelas mãos desses pesquisadores, os estatutos da associação começaram a ganhar forma, sob a liderança de uma diretoria provisória eleita ainda em 1916 e chefiada por Henrique Morize. Estabeleceu-se, assim, que a Sociedade seria formada por 100 membros efetivos, divididos em três seções, seguindo o modelo da academia francesa: Ciências Matemáticas (que compreendiam, além da matemática propriamente dita, a astronomia e a física matemática), Ciências Físico-Químicas (que incluíam física, química, mineralogia e geologia) e Ciências Biológicas (que abrangiam a biologia, a zoologia, a botânica e a antropologia, entre outras disciplinas). A SBC teria, também, sócios beneméritos (cientistas brasileiros com notadas contribuições à Sociedade) e honorários (pesquisadores internacionais de notável merecimento) em número indeterminado.
O pesquisador que desejasse se associar à instituição deveria se inscrever por carta ou ser indicado por três sócios efetivos. Em sua apresentação, era necessário incluir uma relação de trabalhos realizados, títulos obtidos e a seção na qual se almejava vaga, além de exemplares de publicações científicas que permitissem comprovar se tratar de um “brasileiro de notável saber científico”. O material era analisado por uma comissão especial e, se o parecer fosse favorável, o nome do candidato era submetido à votação na seção especializada a que ele se candidatava e ao plenário geral da SBC. Para ser admitido, o candidato precisava que a maioria absoluta dos votos dos sócios fosse favorável à sua entrada. Essa seletividade, que, para alguns, demonstrava certo elitismo, gerou críticas contumazes à SBC em seus primeiros anos.

Para continuar sócio da SBC, os cientistas deveriam contribuir com, no mínimo, um trabalho original por ano e pagar uma anuidade estabelecida. Os inadimplentes eram afastados, assim como os sócios que utilizassem as reuniões da Sociedade para discutir assuntos não científicos. Também eram destituídos aqueles que usassem a imprensa para criar ou fomentar polêmicas sobre questões referentes à instituição. Nos primeiros anos, a SBC se manteve financeiramente com as contribuições dos sócios – muito embora nem todos pagassem as anuidades, cujo valor (200$000) era considerado alto para a época – e doações de órgãos públicos, incluindo diferentes ministérios.
Nas primeiras sessões delinearam-se as principais linhas de atuação da Sociedade Brasileira de Ciências, notadamente o incentivo à ciência desvinculada de objetivos comerciais ou industriais e voltada ao engrandecimento do país, a organização de cursos e conferências de formação e vulgarização de temas científicos e a divulgação de resultados de pesquisas originais em uma revista especializada. Outro objetivo almejado pela entidade era servir como uma espécie de bússola da ciência feita no Brasil, sugerindo aos pesquisadores temas importantes para estudo. Nesse sentido, a nova geração de cientistas tinha como diretriz trabalhar sobre os desafios impostos pela realidade nacional, em vez de buscar temas nas principais linhas de pesquisa da comunidade científica internacional. Vale lembrar que, entre os primeiros membros da Sociedade, estava o sanitarista Oswaldo Cruz, cuja vida científica foi dedicada ao enfrentamento dos problemas de saúde pública nacionais.
Uma iniciativa para dar frutos
Em seus cem anos de vida, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) foi testemunha e partícipe do grande progresso da ciência no Brasil. Em um período marcado por uma guerra mundial que inaugurou a era das armas nucleares, por instabilidades políticas que afetaram a democracia no país e por crises econômicas que prejudicaram o desenvolvimento nacional, a ciência brasileira avançou, multiplicou suas áreas de atuação, afirmou-se internacionalmente e espraiou-se nas diversas regiões do país, beneficiando a sociedade brasileira.
Multiplicaram-se os grupos de pesquisa, o número de artigos publicados em revistas de prestígio, o número de doutores formados. Com consequências diretas para o desenvolvimento nacional: sem a ciência brasileira, a Petrobrás não teria sido uma empresa inovadora, detentora de prêmios internacionais por sua tecnologia de extração de petróleo em águas profundas; a Embraer não estaria exportando aviões para um grande número de países; a produtividade da soja não teria sido multiplicada por quatro, contribuindo para a pauta de exportações do país; e estaríamos de mãos atadas frente a epidemias emergentes, como as arboviroses.

“O fim principal da Sociedade Brasileira de Ciências consiste em espalhar essa noção da importância da ciência como fator de prosperidade nacional.”
Henrique Morize

Outro ponto importante levantado no discurso de posse de Morize era a importância de se divulgar a ciência feita no Brasil e a relação dessa ciência com o desenvolvimento do país. “O fim principal da Sociedade Brasileira de Ciências consiste em espalhar essa noção da importância da ciência como fator de prosperidade nacional”, proferiu, possivelmente inspirado pelo pensamento do fisiologista francês Louis Couty (1854-1884), antigo professor da Politécnica e fervoroso defensor da divulgação científica no Brasil, para quem era de extrema importância promover, na população brasileira, um “estado de espírito” ou uma “corrente científica” que valorizasse a busca do conhecimento pela investigação.
A gestão de Morize foi marcada por uma atividade intensa nessa área. Já em 1917 foi criada a Revista da Sociedade Brasileira de Sciencias, com o propósito de apresentar a ciência como fator de prosperidade nacional. A publicação divulgava resultados de pesquisa dos membros da Sociedade e de pesquisadores externos, além da transcrição de conferências e discursos e das atas das reuniões da entidade. No mesmo ano, a Sociedade realizou sua primeira conferência de divulgação científica, proferida pelo sócio e professor Mário Ramos. O encontro teve como tema “A radiotelegrafia ultrapotente e o desenvolvimento da ciência elétrica” e lotou o auditório da Biblioteca Nacional, obtendo repercussão na imprensa da época, que se apressou em anunciar a realização de palestras futuras sobre biologia, física e astronomia.
Também nessa fase inicial, a SBC recebeu seus primeiros visitantes ilustres, dos quais destaca-se o médico e psicólogo francês George Dumas, da Universidade Sorbonne, que esteve no Brasil pela primeira vez em 1917 – retornaria em 1922, para presidir a instalação do Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura, ligado à Sociedade Brasileira de Ciências. A promoção de palestras de cientistas estrangeiros para o público brasileiro era uma das prioridades da nova associação em sua primeira década de atividades.



Sobral no mapa da física
A Teoria da Relatividade do físico alemão Albert Einstein é uma das ideias científicas mais famosas de todos os tempos. Mas talvez não seja tão famoso o fato de que ela foi comprovada por meio de observações de um eclipse solar no Brasil, em 1919. O evento movimentou a pequena cidade de Sobral, no Ceará, que recebeu uma comitiva de cientistas brasileiros e estrangeiros. No mesmo dia, outra expedição científica foi agendada para a ilha de Príncipe, na África.
O objetivo era confirmar a deflexão da luz, um fenômeno previsto por Einstein segundo o qual um feixe de luz emitido por uma estrela deveria ter sua trajetória desviada ao passar perto de um forte campo gravitacional – no caso, o do Sol. O desvio faria com que a estrela fosse observada em uma posição ligeiramente diferente e, durante o eclipse, os cientistas fizeram fotografias que comprovaram o fenômeno.
Além de participar da organização das observações do eclipse, Henrique Morize chefiou, no momento do fenômeno, a realização de medidas da coroa solar (atmosfera do Sol) com a ajuda de um espectrógrafo – instrumento que registra as diferentes cores emitidas pela luz de um objeto astronômico.
A intensa atividade e o grande engajamento dos cientistas nos primeiros anos da SBC reforçam a ideia de que a nova associação viera para preencher uma lacuna na vida cultural da então capital federal. “Numa capital rica e próspera como a cidade do Rio de Janeiro, era indispensável que se fundasse um grêmio, onde aqueles que estudam as questões da ciência pura pudessem encontrar fraternal agasalho”, disse Morize em seu discurso por ocasião do primeiro aniversário da Sociedade Brasileira de Ciências, em 1917. A relação estreita da SBC com a cidade se refletia em seus estatutos – curiosamente, eles especificavam que, no caso de dissolução da entidade, seus bens deveriam ser doados à municipalidade.
Vista com entusiasmo por seu primeiro quadro de associados, a instituição mudou de nome em 1921, quando passou a se chamar Academia Brasileira de Ciências (ABC), como é conhecida até hoje. A alteração, sugerida pelo sócio Júlio Afrânio Peixoto e aprovada por mais de dois terços de seus colegas, buscava adequar a instituição brasileira ao padrão de outras associações científicas importantes no cenário internacional e enaltecer os nobres objetivos da instituição.
